Cobertura medíocre da imprensa no caso Aldeia Maracanã

Há mais de cem anos, um editor do jornal de Nova Iorque, The Sun, definiu muitíssimo bem o que é uma notícia – em qualquer época e em qualquer lugar – ao realizar a seguinte afirmação: “Quando um cachorro morde um homem, isso não é notícia. Mas, quando um homem morde um cachorro, isso é notícia” (Chris e Ray Harris. Faça seu próprio jornal. Campinas: Papirus, 1993. p. 10). Não é sempre que um homem morde um cachorro, mas o resumo reflete bem que o texto jornalístico deve abordar algo que foge à normalidade, uma situação fora do comum e que chame a atenção da população e, consequentemente, dos leitores.

No entanto, embora simples e precisa, a definição do editor não é perfeita, pois o jornalista se esqueceu de levar em consideração as diretrizes de cada jornal. Isto é, os objetivos que cada publicação possui, bem como as ideias que procura defender. É justamente aí que se o bumbum mordido for de alguém do jornal, a notícia deixará de ser notícia. Parece que foi mais ou menos este o caso do despejo dos indígenas da Aldeia Maracanã, pois a omissão dos principais jornais impressos do Rio de Janeiro sobre o acontecido foi medíocre. Ora, se um homem morder um cachorro é notícia, o que dirá de um caótico conflito ocorrido em plena praça pública. Sim, pois, se o governo precisou mobilizar uma força policial de mais de 200 homens, desde a polícia militar, o batalhão de choque até a Polícia Federal; se o cerco ao antigo Museu do Índio durou mais de 8 horas; se manifestantes pró-indígenas foram até o local protestar, gritando palavras de repúdio ao acontecido e fechando  a principal via de ligação da Zona Norte com o centro da cidade (Radial Oeste); se o conflito só se encerrou com a transformação do entorno do palco da final da próxima Copa do Mundo e abertura dos Jogos Olímpicos em uma grande praça de guerra; se manifestantes, indígenas, curiosos e jornalistas acabaram sendo atingidos pelas bombas de efeito (i)moral e pelos sprays de pimenta atirados pelos policiais; se após o conflito, mais truculência da PM foi vista em novo manifesto, desta vez na Avenida 1º de Março, em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro… se isso não é notícia para estampar a capa de todos os jornais, fica complicado entender o que mais pode ser?

Assim, para responder a questão, façamos uma análise das primeiras páginas dos jornais do dia 23/03/2013, um dia após a calamitosa sexta-feira.

1 – O Globo – Surpreendentemente – ou não -, o principal jornal da cidade ignorou quase que completamente o acontecido nas imediações do Estádio do Maracanã. Posicionando-se claramente de que lado está (ao lado do governo), o jornal da família Marinho não escreveu sequer uma linha em sua capa sobre o episódio. O máximo que conseguiram mencionar, foi uma charge idiota do Chico Caruso, na qual o governador Sergio Cabral fuma um cachimbo da paz com um indígena. Ao invés da “mordida” do dia, O GLOBO preferiu noticiar o resultado da investigação da mais do que gasta Boate Kiss, do Rio Grande do Sul. Há também um destaque para os gastos do governo com as usinas termelétrica, matéria provavelmente tendenciosa que critica a construção de outros tipos de usina além das hidrelétricas. Como a de Belo Monte e tantas outras que, não por acaso, transformam terras indígenas em todo o Brasil. Se fosse algum outro jornal, o mais normal seria considerar que o editor bobeou e perdeu a principal notícia do dia. Contudo, em se tratando do O GLOBO, sabemos que a omissão foi muito mais do que proposital. Quanto menos tratarmos do índio melhor, devem pensar os editores do periódico.

capa jornal o dia

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